Mostrando postagens com marcador Pintores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pintores. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de julho de 2009

Um café da manhã completo para 5 titânicas cabeças

“Na longa história da espécie humana (e do gênero animal, também), prevaleceram os indivíduos que aprenderam a colaborar e a improvisar com mais eficácia.” Charles Darwin

Sexta-feira tive uma reunião fora do escritório interessante. Não foi aquele desperdício de tempo que muitas reuniões do mundo corporativo produzem e que não levam à conclusão alguma ou a qualquer ação efetiva depois. Não foi puro blá blá blá.

Foi numa manhã fria que terminou em sol, começando com um café da manhã, no Cafeína, da Farme de Amoedo.

Éramos 5 pessoas que trabalham juntas que se reuniram para discutir metas individuais e as da área como um todo para o 2º semestre de 2009. Fizemos avaliações e reflexões de 1 ano de trabalho e de nossas atividades. Coisas do mundinho corporativo, sem dúvida. Mas foi civilizado, verdadeiro. Não teve nenhuma baboseira ou hipocrisia.

Até porque embromação não é característica da mulher lidera essa equipe na qual me incluo. Minha chefe é uma mulher um pouco mais jovem do que eu. É uma leonina determinada, exigente. Um pessoa naturalmente desconfiada e reservada. Mas com quem eu sempre tive empatia. Ela tem um lado workaholic e um outro esotérico, pouco conhecido, que se equilibram. Tem dias que ela fica azeda. Nessa reunião foi ótimo falar com as pessoas ali envolvidas e escutar o que elas tinham para dizer, e ainda demos um retorno para
a promotora do acontecimento. O que é justo, mas nem sempre aceito por pessoas que gerenciam outras. Como já dei muitas cabeçadas pelo desafio aceito de ter ido trabalhar com ela, foi gratificante o retorno desse encontro de trabalho.

E com direito a um capuccino maravilhoso e ovos mexidos! Huuummmm, eu adoro ovos mexidos de manhã. Tudo fica melhor.

Iniciativas assim, sem lero-lero, são maduras e devem ser cobradas por quem paga o nosso salário. Minha equipe de trabalho é pequena. Eclética. Os indivíduos se querem bem, aparentemente. Mas são todos bem diferentes entre si e se respeitam mutuamente.Vive la difference!

Tirando um dia ou outro em que revezamos no ápice da chatice, todos têm alegrias, raiva, motivação, desânimo, gripe, ansiedade, mau humor, senso de humor, dor de cotovelo, problemas domésticos, problemas mais sérios, insatisfações, pouco tempo, preguiça, cansaço, saudades, prazeres, vaidades, delícias e por aí vai.

E todos discutem as características astrológicas um do outro porque acreditam mais ou menos nas mesmas coisas. E eu ainda descobri que meu Vênus também está em Gêmeos. Eu realmente tenho uma oversose de gêmeos no meu mapa astral... Too much... Num outro post eu explico isso melhor.

Reflexões sobre a Beleza no Brasil

" A beleza é uma carta aberta de recomendação."
(Arthur Schopenhauer)

Ainda dividindo os estudos da Miriam Goldemberg publicados no livro "Coroas" - aquele que eu ganhei de aniversário de uma amiga verdadeiramente ruiva- e pelo qual eu fiquei completamente fascinada, transcrevo aqui um dos temas do livro, que propõe discutir a idéia da autora de que no Brasil o corpo é um capital.

Vou fazer isso usando imagens de pinturas e xilografias de Matisse e Modigliani. Simplesmente porque expressam beleza e sensualidade - meus objetos de atenção agora.

"Na cultura brasileira contemporânea, determinado tipo de corpo é uma riqueza. Talvez a mais desejada pelos indivíduos das camadas urbanas e também das camadas mais pobres, que percebem "o corpo" como um importante veículo de ancensão social. Nesse sentido, além de um capital físico, o corpo é um capital simbólico, um capital econômico e um capital social. Desde que seja um corpo jovem, sexy, magro e em boa forma, que caracteriza como superior aquele ou aquela que o possui, conquistado, na maioria das vezes, por meio de muito investimento financeiro, trabalho e sacrifício".

A partir dessa idéia, Miriam Goldemberg reflete sobre o significado do envelhecimento feminino na sociedade brasileira. Em uma cultura em que o corpo é percebido como um capital no mercado de casamento, no mercado sexual e no mercado profissional, o envelhecimento torna-se um motivo de forte ansiedade e medo para as brasileiras.

Para o sociólgo Pierre Bourdieu, que inspirou as reflexões da autora, os capitais econômico, cultural. social, político, simbólico e físico são os poderes que definem as probabilidades de ganho num campo determinado. O que leva Miriam Goldemberg a acreditar que o corpo funciona como um importante capital nos mais diversos campos, sendo o corpo um bem simbólico que pode receber valores muito diferentes dependendo do mercado em que está inserido.

Pierre Bourdieu constata que as atitudes corporais consideradas "naturais" são, na verdade, naturalmente "cultivadas". O que se denomina charme, porte, sofisticação, elegância, por exemplo, é a maneira legitimada socialmente de se levar o próprio corpo, de apresentá-lo, de considerá-lo, muitas vezes através da imitação que os indivíduos de cada cultura constroem de seus corpos e comportamentos.

Para Marcel Mauss, há uma construção cultural do corpo, com uma valorização de certos atributos e comportamentos em detrimento de outros, fazendo com que haja um corpo típico para cada sociedade. Esse corpo, que pode variar de acordo com o contexto histórico e cultural, é adquirido pelos membros de uma sociedade por meio da "imitação prestigiosa". Os indivíduos imitam atos, comportamentos e corpos que obtiveram êxito e que têm prestígio em sua cultura.

No caso das brasileiras, as mulheres mais bem-sucedidas e imitáveis são, atualmente, as atrizes, modelos, cantoras e apresentadoras de televisão - todas elas tendo o corpo como capital ou uma de suas mais importantes riquezas.


Antropologicamente, Gilberto Freyre, o autor de "Casa Grande e Senzala", numa matéria entitulada "Uma Paixão Nacional", tenta explicar as raízes culturais da preferência masculina brasileira pela bunda.

Ele comparou as indígenas e as afro-negras, dotadas de nádegas descritas como "notavelmente protuberantes ou salientemente grandes" que não poderiam deixar de provocar o imaginário masculino brasileiro, "sensível à imensidade de provocações frutificadas pela convivência entre essas raças".

O corpo nú das índias e o corpo forte da negra escrava eram desejados e usufruídos pelo corpo hipersexualizado do colonizador português. O encontro entre senhores e escravos no Brasil foi harmonioso e basicamente sexual.

A representação do Brasil como um paraíso tropical e sexual, presente na visão dos estrangeiros e dos próprios brasileiros, se mantém até os dias de hoje, reforçada pelas imagens dos corpos seminus nas praias e ostensivamente expostos durante o Carnaval.

O ideal de beleza miscigenado, defendido por Gilberto Freyre, permanece até os dias de hoje. Mas vem sofrendo um impacto europeizante e albinizante, imposto pelo padrão nórdico, considerando a loirice como um estilo, um jeito de vencer na vida.

Ser loira em um país de morenas é uma maneira de se sobressair e de atender ao gosto colonizado e diversificado do sexo oposto.

Nas últimas duas décadas, a preocupação com o rejuvenescimento cresceu enormemente e novos modelos de mulher passaram a ser imitados: o das mulheres jovens, belas, magras e loiras.

Uma curiosidade maluca beleza:

"Se a sua pele é clara e lisa, pode ser que você tenha níveis elevados de endocanabinóides, uma substância similar ao THC, o responsável pelo “barato” da maconha. Segundo o Journal of the Federation of American Societies for Experimental Biology, assim como o THC protege a planta Cannabis dos raios ultravioleta e das pragas, a versão humana blinda a pele contra bactérias e vírus. Mais pesquisas podem criar cremes à base do composto".

Ah! Eu ainda quero comentar sobre essa coisa de ser genuinamente ruiva. Num país tropical como o nosso, ser ruiva é uma raridade, uma coisa singular. Mas isso dá outro post com certeza.

"Não me amarra dinheiro, não, mas formosura. Dinheiro não, a carne escura. Dinheiro não, a carne dura."
Caetano Veloso, "Beleza Pura"

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Um Pouco de Egon Schiele

Vou falar de Egon Schiele simplesmente porque estou com vontade. Ele nem é um dos meus pintores preferidos, mas foi um dos expoentes máximos do expressionismo austríaco. Nasceu em Junho de 1890, às margens do Danubio, na estação de comboios de Tulln. Morreu em 1918, com apenas 28 anos. E deixou uma obra importantíssima que define bem, o “mal” de um século violento e trágico.

Na adolescência, Schiele assumiu o desaparecimento do pai de forma traumática, desenvolvendo uma doentia aversão pela mãe, tal qual em Hamlet, culpando-a por não ter chorado convenientemente a morte do marido e queixando-se de falta de afeto. Sua instabilidade emocional potencializou o desenvolvimento das capacidades artísticas que, desde muito cedo, ele manisfestou possuir, embora brigasse e desconfiasse até dos que o incentivavam a seguir a carreira de pintor. Precoce, arrebatado e absolutamente seguro da sua genialidade, Schiele associava os comboios da sua infância à ideia de evasão, de viagem.

Em 1911, ele conheceu Wally Neuzil, uma garota de 17 anos que foi modelo de Klimt e, provavelmente, sua amante também. Egon pintou e desenhou Wally naquelas que são consideradas algumas das suas melhores obras. Viveram juntos durante algum tempo, mudando-se para Neulengbach, em parte para escapar ao ambiente organizado de Viena e também para satisfazer ao desejo de evasão de Schiele, que tinha mania da perseguição e outras fobias. Schiele era esquisito. E o casal boêmio e desregrado. Schiele criou problemas em todas as comunidades pequenas e conservadoras por onde passou - e assim o casal foi sucessivamente rechaçado e perseguido.

Schiele foi um artista condenado por denunciar a corrupção de uma sociedade hipócrita e decadente, assim como Oscar Wilde também o fez. Ele não fez mais do que expressar o horror do ser humano levado ao extremo da sua degradação.

Para Schiele a natureza era tão fascinante quanto animada por um declínio irrevogável. Explorou sem complacência a antevisão da morte em quase tudo o que registrou: nas flores ressecadas, nos traços de fome, do vício, da promiscuidade e nas visões alucinatórias de cidades sombrias.
Muitos dos corpos masculinos e femininos que desenhou, angulosos, distorcidos e de uma magreza aguda, parecem antecipar os horrores dos campos de concentração. Mas têm uma sensualidade que demonstra bem a fome do sexo e a ânsia do ser humano por sobreviver a todas as tragédias as quais é exposto. Aprecie. São bonitos, não? De um erotismo mais que poético...