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domingo, 14 de março de 2010

O Segredo dos teus Olhos

"O Segredos dos seus Olhos", filme portenho que ganhou o Oscar 2010 de Melhor Estrangeiro fez por merecê-lo.

Uma história boa de contar que deu um roteiro simples e com muito jeito na mistura de suspense, humor e romance, dando liga em tudo junto sem desandar: o oficial de justiça recém aposentado Benjamín (Darín) começa a escrever um romance policial sobre um caso de estupro seguido de morte que ele mesmo investigou em 1974.

Ao revisitar o passado pelas palavras e pela memória, ele questiona o resultados das investigações e a forma como conduziu sua vida até então. Entre indas e vindas no tempo, descobre-se como foi o crime e o que ele causou aos envolvidos, e que as decisões passadas ainda podem ser fatais no presente.

O crime é ambientado na época da última ditadura na Argentina, tratada de forma econômica e sem demagogia, apenas como cenário do governo de Isabel Perón e das ações constantes da “Triple A” (Aliança Anticomunista Argentina), grupo de repressão do Estado que recrutou gente da pior espécie, entre oficiais de polícia exonerados por delitos, civis com fichas criminais e matadores de aluguel. Tutti buona genti.


No final das contas, o filme é sobre o poder da paixão em nossas vidas. E o quanto elas podem resistir ao tempo.


Todos os atores estão bem.
O papel dramático do amigo alcoólatra é pontuado por situações engraçadíssimas.

É dele a máxima de que as pessoas podem alterar ou mudar quase tudo nelas mesmas, menos as próprias paixões.

Gostei da questão sobre justiça com
as próprias mãos do ponto de vista daqueles que perderam violentamente a quem amavam, apesar de todas as reconhecidas controvérsias. O filme não foi nem moralista, nem revanchista. Foi humano. E bom para os olhos de quem vê.

sábado, 13 de março de 2010

An Education

"We don't need no education
We don't need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave the kids alone
Hey, teacher, leave the kids alone !
All in all it's just another brick in the wall
"
Pink Floyd

Fui assistir ao filme "Educação".

Achei muito bom mesmo.



Conta a história de uma menina de 16 anos super inteligente, vivendo uma vida entediante num subúrbio londrino, no início dos anos 60. Na fase pré-Beatles.



Cult, ela é aluna de uma escola tradicional de meninas, se preparando para o curso de letras de Oxford, numa época em que os vestígios da II Guerra e da intolerância racial eram muito latentes.

Onde a rivalidade entre franceses e ingleses não era só motivo de piada, era preconceito mesmo. Nessa época, percebe-se uma insatisfação reprimida que exploridiria, poucos anos depois, no movimento revolucionário da contra-cultura.

Fica claro no filme como o pai de Jenny - representando milhares de pais de família ingleses, classe média - se consideram isolados do resto do continente, na "Ilha", como eles mesmos se referem à Inglaterra. Toda a Europa é para eles apenas o resto do continente.

Gostei da maneira como o filme questionou o hábito de termos discursos e argumentos prontos que, de repente, não convencem mais pela sua enfadonha repetição.

Afinal, por que nos sacrificamos e nos privamos tanto do prazer por ser ele rotulado de incompatível com a realização de um objetivo? Muitas vezes, os sacrificios deixam de fazer sentido. E em algum momento, alguém questiona isso. E faz toda a diferença.


No filme, Jenny sofre com o dilema da escolha entre uma educação formal e o aprendizado da vida que a seduz.

Ela se apaixona por um um bon vivant de uns 30 e tantos anos e muito carisma, que lhe apresenta um mundo mais interessante do que o que ela conhecia até então, mas intuía existir.

Fica claro como o apoio da família é importante nas escolhas de uma pessoa. Principalmente quando ela é muito jovem. Decidir o rumo na própria vida já é uma tarefa difícil por si só, por conta dos medos do desconhecido, do inesperado.

Tudo pode acontecer, tanto de bom quanto de ruim. E isso traz muita ansiedade. Quando se é apenas um adolescente em transição, a disponibilidade para o perigo, para o que apaixona, o que emociona é muito mais forte. Por isso o apoio familiar é tão importante.

Compartilhar somente as coisas boas é muito fácil e muito cômodo. O amparo da família na realização de um sonho é um divisor de águas na vida de qualquer um, e quando o resultado vem, seja ele qual for, continuar ao lado faz toda a diferença.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Um gênio brasileiro em criatividade: Paulo Barros

"Acreditar, desafiar
Superar os limites do homem
Brincar de Deus, criar a vida
Querer voar e flutuar
"

Fiz um homenagem póstuma em outro post ao estilista inglês Alexander Mcqueen, que tristemente se suicidou no dia 11 de fevereiro desse ano de 2010. E acabei não fazendo um comentário mais do que justo sobre a criatividade e o talento do carnavalesco Paulo Barros, da Unidos da Tijuca.

A escola ganhou o título de Campeã do Carnaval carioca de 2010. E acho que foi mais do que merecido. A comissão de frente foi de uma excepcionalidade histórica. Embora o chatinho do Xexéu tenha implicado com o cara.

O abre-alas, que reproduzia o incêndio que destruiu a Biblioteca de Alexandria,
na Antiguidade, foi brilhante.


A bateria foi inovadora vindo de mafiosa. E estava um calor de derreter no Rio!


Eu não entendo muito de Carnaval. Nem sou tão fã assim da folia momesca, nunca fui fissurada por Carnaval, mas faço parte daquele grupinho que não nega que é um espetáculo indescritível. Só vendo para entender. Eu não morro por uma fantasia para atravessar a avenida. Mas adoro ver a cara de quem gosta desfilando, sambando ou pulando. Seja o que for.

O destemido Paulo Barros,
justiça seja feita,
é um gênio de criatividade.

Simples, visionário e ousado...

Nota 10!

A Unidos da Tijuca ganhou num ano em que fez um calor histórico no Rio de Janeiro, o carnaval de rua foi totalmente ressuscitado, provando que, infelizmente, a cidade não tem estrutura para o tanto de gente que vem brincar nos blocos e Madonna veio assistir aos desfiles no Sambódromo.

Foi um ano em que Copacabana ficou muito mais civilizada do que a praia de Ipanema e a onda foi mergulhar à noite no Arpoador. O Flamengo perdeu a taça GB, o sorvete Itália e o biscoito O Globo continuaram os ícones da estação nas praias, choveu pouco e eu perdi o contato com gente que eu gostava de conversar. Ah! E eu sinto que estou quietinha, em fase de mutação. Melhor ver o que acontece, sem perder o controle das coisas...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O design no jeito de viver

Preciso reconhecer que nesses tempos de insatisfações multiplas, o projeto residencial batizado de "Jade Jagger for YOO", representa um dos meus sonhos de consumo.

A casa foi toda idealizada de um jeito que eu admiro muito.

Aliás, o post foi para diser que admiro o jeito de viver da Jade Jagger. É quase uma invejazinha mesmo, esse sentimento estupidozinho.

A marca YOO, de John Hitchcox e Philippe Starck representa empreendimentos imobiliários visionários mundo a fora. A YOO redefiniu projetos residenciais e o marketing imobiliário lá no início dos anos 2000, injetando inteligência, consumo consciente e personalidade em todo projeto que assina desde então.

Philippe Starck dispensa apresentações, mas mesmo assim, vá lá, o cara combina
excêntricidade com espírito igualitário. Com Starck, todo projeto, seja grande ou pequeno, vira um evento especial, ele é quase um "pop star". Imprevisível, mas ao mesmo tempo instantaneamente reconhecível, seu trabalho vai da concepção de motos e hotéis a espremedores de limão. Design puro na veia.

Sobre John Hitchcox, pesquisei e sabe-se que como co-fundador do The Manhattan Loft Corporation, ele teve participação no movimento do estilo de vida residencial em "lofts" - bem típico de Nova York, e que influenciou profundamente o mercado residencial do Reino Unido com projetos pioneiros no Soho, Notting Hill, Canary Wharf e Bankside (todos bairros de Londres).


Em 2004, eles se aliaram a Jade Jagger para criar o projeto "Jade Jagger for YOO" onde ela seria a diretora de criação, assumindo o papel de designer conceitual dos projetos residenciais.

Mas, o que encanta mesmo nos projetos de arquitetura da Yoo, é o conceito “pod living” criado por Jade, para um público single de alto poder aquisitivo.


O conceito é o de apartamentos de mais ou menos 80 m2, sem paredes e com um “cubo modular” no centro, interligando todos os ambientes, Cozinha, banheiro e armários ficam ali embutidos.

Esse é o conceito de pod house desenvolvido por ela.


O que Jade Jagger não sabe é que eu consigo criativade ainda maior num espaço bem menorzinho e para muito mais gente...

Todas as fotos até agora são do projeto residencial de um suburbio londrino que eu amei mas esqueci o nome. A casa é toda inteligentemente pensada.

Como designer, Jade ocupa, desde 2000, o cargo de diretora de criação da Garrard, criando jóias extasiantes para o joalheiro real da Inglaterra.

O posto de criação que ela desempenha na Garrard (descrito pela Vogue como o cargo que as pessoas "matariam para ter") é visto como o sopro por trás da remodelação radical da marca.

Conhecida por seu desencanado estilo de vida Londres/Ibiza e por seu trabalho de design, Jade combina luxo com valores hippies mais simples. Reforçando a filosofia de que mais é menos.

Acho ela o máximo.
E temos a mesma idade.
Sim, ela é filha do Mick Jagger com Bianca Jagger. Tem duas filhas adolescentes.
E muita personalidade.
Sobre sua vida pessoal,
apesar de estar há anos com o DJ Dan Williams,
declara por aí, quando perguntada,
que não acredita em monogamia.
E fala isso não para chocar, mas como quem está convicta e em paz com o que pensa e sente.
E o seu jeito de viver.


"“Eu me pergunto porque a sociedade moderna fez da monogamia a única opção. E por que na Inglaterra todos querem saber se você está com o fulano ou o beltrano? Por que eu não poderia estar com os dois?”"
Jade Jagger

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

The Thomas Crown Affair

-Quero que me fale sobre as mulheres...
Silêncio.
Distração.

- Mr. Crown?
- Desculpe...
- Mulheres... ainda não falamos das mulheres...
- Sinto prazer em estar com as mulheres.
- Sentir prazer não é amar.
- Amar nem sempre traz prazer.
- Como você saberia?
Pausa.

- Nunca lhe ocorreu que o seu problema é confiar?
- Confio em mim implicitamente. (Um sorririsinho sarcástico).
- Sim, mas e as pessoas? Elas podem confiar em você?
- A sociedade em geral? (Questiona Thomas Crown).
- As mulheres, Mr. Crown... (A terapeuta fala bem devagar)
Pausa.

- Sim, uma mulher poderia confiar em mim.
- Ótimo! E quais seriam as suas condições extraordinárias para isso?
- Uma mulher pode confiar em mim desde que seus interesses não sejam tão contrários aos meus.
- E quanto à sociedade? E se os interesses dela forem contrários aos seus?

Silêncio. Um sorriso e um olhar.

Terapeuta e paciente num diálogo interessante, com linguagem corporal reveladora. É assim que começa o filme "The Thomas Crown Affair", um dos meus top ten. O filme é um remake do original de 1968 com Faye Dunaway e Steve McQueen.


Thomas Crown é um bilionário bon vivant, considerado um gênio do mercado financeiro, acostumado a ter tudo o que quer e que gosta de correr riscos quando se sente entediado. O próprio King of Cool.


Por um pouco de adrenalina, ele resolve roubar um Monet, avaliado em 100 milhões de dólares, do Metropolitan, de NY.

O plano tem umas sutilezas engraçadinhas: faz uma referencia historica bem humorada com a invasão do museu num Cavalo de Tróia.





Tudo no filme é um jogo.
O personagem gosta de jogar.







O Monet em questão é este aí, com o título de "Veneza"


Aí o filme ganha um contorno instigante porque mexe com conquista, desafio e romance. A polícia de NY e a perita da seguradora da obra roubada investigam o caso, só que a perita em questão, interpretada pela Renee Russo, é muito mais esperta do que a polícia e passa a desafiar a inteligência do mentor do crime. Um combustível e tanto para a libido de quem não costuma encontrar desafios à altura.

Thomas Crown é cínico, envolvente e interessante como Pierce Brosnan sabe fazer muito bem.

Miss Catherine Banning é inteligente, espontânea e ousada.

Eles passam a ter um relacionamento nada sem graça, com possibilidades variadas, proporcionadas pelo mundo de Crown. Um afrodisáiaco facilitador e tanto.

A curiosidade de um pelo outro, motivada pelo jogo da perseguição instalado, faz rolar uma química legal entre os dois.









Gosto quando rola um clima entre eles, porque há sensualidade sem o comprometimento da naturalidade. Um faz o outro rir e por isso mesmo a química entre eles parece ser mais legal. Algo que eu acredito ser verdadeiro.




Miss Banning tem uma personalidade muito interessante, é intensa e tem senso de humor, não faz só caras e bocas. Acho a personagem o máximo.




Para provar que pode o que quer e quer ficar com a moça, Crown devolve a tela ao mesmo lugar e rouba outro Monet, através de um plano cuja ironia consiste no uso de um disfarce idêntico ao da tela "O Filho do Homem", de Rene Magritte, reconhecido por ele mesmo como sendo o seu alter ego.

A trilha sonora é das melhores. Adoro Nina Simone cantando "Sinnerman". Tenho revisto filmes antigos. Uma coisa de fases. Falta de vontade de sair. Deve ser a nostalgia.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O código do talento

"Todo mundo tem um talento. O que é raro é a coragem de seguir o talento para o lugar escuro onde ele leva."
Erica Jong

Algumas pessoas nascem com um dom. Um tipo de presente que vem em seus DNA's. Uma espécie de magia própria. Algumas dessas pessoas, demonstram suas aptidões artísticas, esportivas, científicas ou seja lá quais forem, logo cedo, como se esses dons pulsassem incontroláveis dentro delas, levando-as a expressarem suas aptidões explicitamente.

Outras precisam de algum estímulo para desenvolverem suas habilidades geniais.
Tem as que descobrem seus dons por acaso. Outras, lamentavelmente, nunca os descobrem.

E mais triste ainda, na minha opinião, é quando algumas os identificam, mas não sabem ou não querem desenvolvê-los. Seja por uma questão de estima pessoal, falta de confiança ou por não saberem o que fazer com eles. E tem também aqueles casos injustos de falta de oportunidade.

Quem não descobriu sua própria inclinação, aquilo que a difere das demais, aquilo que lhe é tão peculiar, passa por essa vida com uma estranha sensação de inutilidade.

Mas aquelas que desperdiçam os dons que possuem, principalmente os artísticos, mesmo tendo consciência deles, me irritam. Talvez porque eu me sinta tão medíocre, tão admiradora do talento delas, que não aceito suas omissões. Para mim é o assassinato do encanto, do que vale à pena, do que as torna realmente interessantes.

Dito isso, divulgo aqui alguns desenhos de alguém que me é muito próximo e sufoca, dia-a-dia, o dom e o talento que vieram em seu código genético, e são inerentes a ela.

"Uma grande quantidade de talento é desperdiçada pela falta de um pouco de coragem. Todos os dias seguem para o túmulo, homens obscuros, cuja timidez os impediu de fazer uma primeira tentativa." Sidney Smith

sábado, 4 de julho de 2009

Reflexões sobre a Beleza no Brasil

" A beleza é uma carta aberta de recomendação."
(Arthur Schopenhauer)

Ainda dividindo os estudos da Miriam Goldemberg publicados no livro "Coroas" - aquele que eu ganhei de aniversário de uma amiga verdadeiramente ruiva- e pelo qual eu fiquei completamente fascinada, transcrevo aqui um dos temas do livro, que propõe discutir a idéia da autora de que no Brasil o corpo é um capital.

Vou fazer isso usando imagens de pinturas e xilografias de Matisse e Modigliani. Simplesmente porque expressam beleza e sensualidade - meus objetos de atenção agora.

"Na cultura brasileira contemporânea, determinado tipo de corpo é uma riqueza. Talvez a mais desejada pelos indivíduos das camadas urbanas e também das camadas mais pobres, que percebem "o corpo" como um importante veículo de ancensão social. Nesse sentido, além de um capital físico, o corpo é um capital simbólico, um capital econômico e um capital social. Desde que seja um corpo jovem, sexy, magro e em boa forma, que caracteriza como superior aquele ou aquela que o possui, conquistado, na maioria das vezes, por meio de muito investimento financeiro, trabalho e sacrifício".

A partir dessa idéia, Miriam Goldemberg reflete sobre o significado do envelhecimento feminino na sociedade brasileira. Em uma cultura em que o corpo é percebido como um capital no mercado de casamento, no mercado sexual e no mercado profissional, o envelhecimento torna-se um motivo de forte ansiedade e medo para as brasileiras.

Para o sociólgo Pierre Bourdieu, que inspirou as reflexões da autora, os capitais econômico, cultural. social, político, simbólico e físico são os poderes que definem as probabilidades de ganho num campo determinado. O que leva Miriam Goldemberg a acreditar que o corpo funciona como um importante capital nos mais diversos campos, sendo o corpo um bem simbólico que pode receber valores muito diferentes dependendo do mercado em que está inserido.

Pierre Bourdieu constata que as atitudes corporais consideradas "naturais" são, na verdade, naturalmente "cultivadas". O que se denomina charme, porte, sofisticação, elegância, por exemplo, é a maneira legitimada socialmente de se levar o próprio corpo, de apresentá-lo, de considerá-lo, muitas vezes através da imitação que os indivíduos de cada cultura constroem de seus corpos e comportamentos.

Para Marcel Mauss, há uma construção cultural do corpo, com uma valorização de certos atributos e comportamentos em detrimento de outros, fazendo com que haja um corpo típico para cada sociedade. Esse corpo, que pode variar de acordo com o contexto histórico e cultural, é adquirido pelos membros de uma sociedade por meio da "imitação prestigiosa". Os indivíduos imitam atos, comportamentos e corpos que obtiveram êxito e que têm prestígio em sua cultura.

No caso das brasileiras, as mulheres mais bem-sucedidas e imitáveis são, atualmente, as atrizes, modelos, cantoras e apresentadoras de televisão - todas elas tendo o corpo como capital ou uma de suas mais importantes riquezas.


Antropologicamente, Gilberto Freyre, o autor de "Casa Grande e Senzala", numa matéria entitulada "Uma Paixão Nacional", tenta explicar as raízes culturais da preferência masculina brasileira pela bunda.

Ele comparou as indígenas e as afro-negras, dotadas de nádegas descritas como "notavelmente protuberantes ou salientemente grandes" que não poderiam deixar de provocar o imaginário masculino brasileiro, "sensível à imensidade de provocações frutificadas pela convivência entre essas raças".

O corpo nú das índias e o corpo forte da negra escrava eram desejados e usufruídos pelo corpo hipersexualizado do colonizador português. O encontro entre senhores e escravos no Brasil foi harmonioso e basicamente sexual.

A representação do Brasil como um paraíso tropical e sexual, presente na visão dos estrangeiros e dos próprios brasileiros, se mantém até os dias de hoje, reforçada pelas imagens dos corpos seminus nas praias e ostensivamente expostos durante o Carnaval.

O ideal de beleza miscigenado, defendido por Gilberto Freyre, permanece até os dias de hoje. Mas vem sofrendo um impacto europeizante e albinizante, imposto pelo padrão nórdico, considerando a loirice como um estilo, um jeito de vencer na vida.

Ser loira em um país de morenas é uma maneira de se sobressair e de atender ao gosto colonizado e diversificado do sexo oposto.

Nas últimas duas décadas, a preocupação com o rejuvenescimento cresceu enormemente e novos modelos de mulher passaram a ser imitados: o das mulheres jovens, belas, magras e loiras.

Uma curiosidade maluca beleza:

"Se a sua pele é clara e lisa, pode ser que você tenha níveis elevados de endocanabinóides, uma substância similar ao THC, o responsável pelo “barato” da maconha. Segundo o Journal of the Federation of American Societies for Experimental Biology, assim como o THC protege a planta Cannabis dos raios ultravioleta e das pragas, a versão humana blinda a pele contra bactérias e vírus. Mais pesquisas podem criar cremes à base do composto".

Ah! Eu ainda quero comentar sobre essa coisa de ser genuinamente ruiva. Num país tropical como o nosso, ser ruiva é uma raridade, uma coisa singular. Mas isso dá outro post com certeza.

"Não me amarra dinheiro, não, mas formosura. Dinheiro não, a carne escura. Dinheiro não, a carne dura."
Caetano Veloso, "Beleza Pura"

domingo, 21 de junho de 2009

A Beleza por Matisse I

"Ó beleza! Onde está tua verdade?" William Shakespeare

Vou juntar imagens de Henri Matisse e Amadeo Modigliani com fragmentos de textos sobre a beleza e fazer uma série sobre o assunto. Combina com a fase Miriam Goldemberg em que me encontro. Estou devorando os livros com os estudos dessa antropóloga.

Uma amiga ruiva me deu o livro dela chamado "Coroas". Estou adorando. Mas agora não vai dar tempo de falar sobre isso. Eu tenho mais 2 livros. Um chamado "Infiel" que tem um estudo interessantíssimo e outro chamado "Toda Mulher é meio Leila Diniz". Agora deixo um pouco de Shakespeare para falar de beleza com toda a força que as palavras do bardo têm, mesmo traduzidas.

"Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.

E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver".

William Shakespeare , O Bardo, novamente

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Simplesmente Christian Louboutin, um sapateiro fabuloso

"Queria que as mulheres deixassem uma imagem quando fossem vistas indo embora" Christian Louboutin

A primeira vez que eu vi os sapatos de Christian Louboutin foi em Londres e eu simplesmente congelei na frente da vitrine. Fiquei hipnotizada.

Aqueles sapatinhos de solado vermelho e salto bem alto, quase todos agulha, aquele design, aquela leveza... Eram de uma imponência, uma sensualidade... Nossa... Uma coisa assim totalmente "red carpet".

Em março de 2009, abriu uma loja em São Paulo.

Numa entrevista à Oprah Winfrey, Louboutin contou que a ideia de pintar a sola dos seus sapatos veio num momento em que ele achava que as suas criações precisavam de um toque especial. “Uma funcionária minha sempre pintava as unhas. Um dia peguei o esmalte dela, passei na sola, e o sapato ganhou vida”. Depois disso, nunca mais esses solados passariam desapercebidos. Para os casamentos, costuma fazer sapatos com um solado especialmente azul.


Não se trata de futilidade, mas de apreciar um design bonito, gente! Faz bem ver coisas bonitas e harmoniosas.

Andando de moto por Paris e fazendo aulas de trapézio, ele diz que suas inspirações vêm de todos os lugares. E eu acredito.



Antes de abrir sua própria loja, em 1992, Louboutin estagiou com Charles Jourdan, que fazia os sapatos das maisons Christian Dior, Chanel e Yves Saint Laurent. Uma jornalista da revista "W" ouviu a princesa Caroline de Mônaco comentar e elogiar as criações de um novo designer e escreveu uma matéria que o consagrou definitivamente. É claro que ele já tinha talento e bom gosto de sobra. Mas, sabe aquela coisa de estar no lugar certo, na hora certa? Pois é... Sorte de todos nós desse talento poder ser conhecido e compartilhado. Eu não posso comprar um sapatinho desses, o valor é um absurdo para os meus padrões, mas certamente que eles são maravilhosos. Posso viver sem eles, mas não sem desejá-los. Há quem veja beleza no design de todas as coisas. Eu sou uma dessas pessoas.

Seus sapatos podem ser do tipo fatal ou Cinderela. Às vezes são mais românticos, outras mais punks. Podem ter saltos bordados de pedras, podem ser revestidos de pedaços de espelhos ou forrados de tachinhas...

O cara simplesmente tem uma imaginação solta. Fiz uma tirinha com 4 modelitos para deleite.


Prova dessa imaginação toda foi a parceria com o cineasta David Lynch na exposição de fotos e sapatos chamada “Fetish”, de 2008, na galeria Véro Dodat, no centro de Paris, perto do Louvre.

O Instituto de Moda e Tecnologia de Nova York prestou uma homenagem a Louboutin, no início de 2008, com uma retrospectiva de sua trajetória intitulada de "Sole Desire: The Shoes of Christian Louboutin".

Embora seja o autor da declaração e que não gosta da palavra conforto, o designer esclarece que o que não suporta mesmo é a idéia de olhar para um sapato e pensar que a primeira coisa que lhe venha à cabeça seja , exatamente, a idéia de conforto. De resto, declara, com a experiência de quem veste pés exigentes de várias partes do planeta: "Sapato é estrutura. O resto é enfeite".

Ave Christian Louboutin! Do meu relacionamento, só uma pessoa muito querida e que investe no que é bom, tem. Ai, ai. É de suspirar.

domingo, 17 de maio de 2009

Louise Brooks e a origem de Valentina

Mary Louise Brooks foi a primeira "it girl" do cinema. Do cinema mudo, by the way. Nascida em Kansas, em 1906, foi modelo, dançarina e escritora. Foi liberal, libertária e libertina.

Ela deu vida à trágica e impulsiva personagem Lulu no filme "A Caixa de Pandora", de G. W. Pabst (Alemanha, 1929) que gerou muita polêmica na época, por causa das atitudes de Lulu - uma mulher sexualmente livre. Também foi o primeiro filme a exibir uma cena de lesbianismo no cinema. Imagina isso em 1929! Ano do crash mundial da bolsa de valores e da grande depressão.

O filme foi muito mal recebido nos EUA. Mais tarde seria considerado um clássico e viria a imortalizar Louise Brooks como Lulu. Mas na época, ela acabou ficando mal vista e, de certa forma, colocada numa espécie de "lista negra" pelos grandes estúdios.


Além de considerada arrogante e atrevida, Louise Brooks era extrememente insegura, quase beirando a paranóia e se convenceu de que os estúdios estavam querendo humilhá-la. Desistiu de estrelar um filme com James Cagney, o que poderia ter revitalizado sua carreira cinematográfica, simplesmente porque preferiu ficar com o seu amante. Deixava seu superego de lado ao fazer declarações bombásticas. Não tinha pudores em posar para fotos ousadas ou atuar em filmes controversos para a sua época. E pagou um preço alto por isso. Largou precocemente o cinema em 1938, aos 32 anos de idade.

Nos anos seguintes, começou a escrever e teve diversos artigos publicados em revistas na Inglaterra, na França e no Canadá. Mas só três de seus artigos foram publicados nos EUA, um deles na revista Image, editada pela Eastman House. Assim como Hollywood não tinha sabido o que fazer com Louise, a atriz, a indústria editorial americana também não sabia onde encaixar Louise, a escritora.


Seus filmes com G. W. Pabst foram resgatados por críticos nos anos 50, quando já vivia reclusa em Nova Iorque, longe dos seus tempos de Hollywood. Morreu em 1985, aos 78 anos de idade.

O visual de Louise Brooks inspirou o desenhista italiano Guido Crepax a criar o personagem de quadrinhos eróticos mais famosa das HQ's, a milanesa Valentina.


Valentina Rosselli é uma fotógrafa independente, sexy e bem resolvida que se envolve com o crítico de arte Philip Rembrandt, que na verdade é um super-herói com poderes mediúnicos, com o codinome de Neutron, no melhor estilo 007.

Inicialmente ela era apenas uma coadjuvante nas tramas policiais protagonizadas por Neutron, mas foi aos poucos ganhando espaço e assumindo o papel principal nas histórias.

Criada em Milão, um dos focos do design, moda e comportamento do mundo, Valentina faz inúmeras referências à alta costura, com o seu corte de cabelo Chanel e o seu vestidinho Dior. Ela é linda, esguia e independente. O ambiente natural de Philip Rembrandt e Valentina Rosselli são salões repletos de artistas e intelectuais onde circulavam inúmeras referências literárias, musicais e artísticas da década de 60.

Com o tempo, no lugar dos enredos de trama policial, as histórias de Crepax foram ficando cada vez mais surreais e sensualmente oníricas. Valentina sonhava, nem sempre dormindo, com um mundo surreal, povoado por fantasias eróticas.

A obra de Guido Crepax influenciou toda uma geração de cartunistas como Milo Manara e Paolo Serpieri, mestres no gênero dos quadrinhos eróticos.

"A boca, os olhos e outras partes de Valentina, presentes em cortes e enquadramentos pouco comuns às HQs da época, trouxeram uma atmosfera cinematográfica e particular às histórias que, junto com seu conteúdo surreal, foram responsáveis por conferir ao trabalho de Crepax o status de arte".

Ah! Tem um documentário chamado Lulu in Berlin, no YouTube, que resgata a obra de Louise Brooks através de uma entrevista da atriz em 1974. Mostra uma mulher que apesar da passagem do tempo, permaneceu bela, lúcida e articulada. E exilada.